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O que há de mais importante na Fiocruz Adicionar o RSS

Foto: Virgínia Schall

Virgínia Schall

Com quase 30 anos de Fiocruz, Virgínia Schall já atuou no IOC, participou da criação do Museu da Vida e hoje coordena o Laboratório de Educação em Saúde – LABES – do Centro de Pesquisas René Rachou – CPqRR/Fiocruz-MG.

Há quanto tempo você está na Fiocruz?
Entrei na Fiocruz no início de 1981, no Departamento de Biologia do IOC, como pesquisadora bolsista do CNPq. Portanto, estou na instituição há 28 anos.

Qual a sua formação?
Sou psicóloga (PUC/MG) com mestrado em neurofisiologia e comportamento (ICB/UFMG) e doutorado em educação (PUC/RJ). Fiz também uma especialização em educação em saúde na UFRJ e outros cursos internacionais de curta duração associados a essa área específica.

Você já trabalhou em outras unidades? Já trabalhou ou esteve no campus do Rio de Janeiro?
Trabalhei no campus do Rio por 18 anos. Como disse, comecei na Fiocruz no Departamento de Biologia do IOC, onde criei o Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde (LEAS). Em 1998 mudei para Belo Horizonte e passei a trabalhar no Centro de Pesquisas René Rachou, CPqRR/Fiocruz/MG. 

Como você avalia o intercambio entre as unidades da Fiocruz que ficam em diferentes estados?
Mesmo morando em Minas, mantenho um intercâmbio intenso com outras unidades como o IOC e o Museu da Vida. Continuo como docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Biociências e Saúde/IOC. Mantenho parceria com uma equipe do Laboratório de Medicina Tropical do IOC e com várias equipes do Museu da Vida. Fui coordenadora do PIBIC/Fiocruz, já morando em Belo Horizonte e trabalhando em sintonia com a equipe nacional.

Também como coordenadora do programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, do CPqRR, participei da Câmara Técnica de Ensino. Eu vejo nas Câmaras Técnicas um instrumento muito propício ao intercâmbio entre unidades, as quais agora se multiplicam pelo país e requerem intensificação das parcerias.

Por outro lado, numa análise geral, penso que ainda há espaço para incremento das parcerias e vejo grandes possibilidades de atuação em redes, as quais podem ser incentivadas e reunir competências de forma mais sinérgica e produtiva, desde que induzidas por políticas institucionais e não apenas por iniciativas individuais. 

Fale um pouco sobre as atividades que você desenvolve no CPqRR.
Minha transferência para o CPqRR ocorreu em 1999, embora desde 1998 eu já estivesse um pouco nas duas unidades (IOC e CPqRR). Iniciei montando um grupo de pesquisa que possibilitou, em 2001, a criação do Laboratório de Educação em Saúde (LABES), incluindo hoje mais de 30 pessoas, a grande maioria estudantes. O Laboratório cresceu rapidamente e inclui algumas linhas de pesquisa relevantes para a saúde pública. Temos ampliado as parcerias com instituições e serviços de saúde e de educação locais. 

Dediquei grande parte dos meus primeiros anos na unidade para desenhar e estruturar o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (mestrado e doutorado) em suas três áreas de concentração. Tivemos uma grande alegria ao sermos promovidos da nota 4 para 5 pela CAPES com apenas um ano de funcionamento. 

Ainda como coordenadora do Programa, foi possível auxiliar a Faculdade de Medicina da UNIMONTES a implantar o seu próprio Programa de Pós-graduação atendendo ao incentivo da CAPES de solidariedade institucional. Sou docente e oriento alunos nesse Programa, o qual representa um ganho expressivo para a descentralização do desenvolvimento de recursos humanos para a melhoria do SUS. 

Também recebemos auxílio da Fapemig para criar uma mostra interativa itinerante (que denominamos CECIS – Centro de Educação, Ciência e Saúde), a qual contabiliza uma série de eventos de divulgação científica sobre saúde pública em Belo Horizonte. 


Na sua opinião, qual a importância de se pensar e desenvolver uma educação para a saúde de forma transdisciplinar?
Ao longo do século XX, a educação em saúde foi se fortalecendo, sobretudo a partir das conferências internacionais de saúde. A educação em saúde é um campo multidisciplinar por natureza, para o qual convergem diversas concepções, integrando as ciências humanas, sociais e biomédicas. É uma área que requer comprometimento com políticas públicas, ambientes apropriados e reorientação dos serviços de saúde para além dos tratamentos clínicos e curativos. 

Por sua vez, nas últimas décadas, a divulgação científica foi ganhando espaço e a democratização do saber científico tornou-se uma necessidade imperiosa na sociedade. A Fiocruz, ao criar o Museu da Vida, assumiu o compromisso de divulgar o conhecimento que nela é produzido, assim como ampliar o acesso à população sobre os avanços da ciência. Considerando a realidade brasileira a democratização do saber produzido na instituição adquire grande responsabilidade social, requerendo sua divulgação para a população, indutora de reflexões e ações em prol da saúde, qualidade de vida e comprometida com a transformação social.

 
O seu laboratório - o LABES - além de atuar na área de educação em saúde também desenvolve pesquisas com produtos naturais. Fale um pouco sobre essas pesquisas.
Na realidade, mantemos apenas o estudo de uma planta, a Euphorbia milli, popularmente conhecida como coroa de Cristo.  Sua ação moluscicida para os caramujos hospedeiros intermediários do verme causador da esquistossomose no Brasil, foi por nós descoberta em 1986 (Vasconcellos & Schall, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz). 
A história dessa descoberta começa com uma investigação anterior da Euphorbia tirucalli (avelós), planta que eu observei no nordeste brasileiro e trouxe para o nosso laboratório no Rio para investigar. Ela apresentou letalidade para os moluscos, mas também era tóxica para outros animais e plantas. Certo dia, um bolsista sob minha orientação viu um jardineiro podando a coroa de Cristo em um canteiro na Ilha do Governador. Identificou a semelhança com a E. tirucalli e trouxe amostras para o laboratório. A pesquisa foi um sucesso. Essa planta tinha letalidade para os moluscos em baixíssima concentração e a partir de então passamos a investir em seu estudo. Ela tem se mostrado muito apropriada, pois não mata peixes, não afeta o plâncton, outros moluscos, larvas de inseto e não interfere na flora local. 
 
Já realizamos praticamente todos os estudos toxicológicos e de campo necessários e requeridos para demonstrar a possibilidade de seu uso no ambiente. Em uma visita a Baldim, município endêmico de Minas Gerais, observamos que a prevalência se mantém por décadas em moradores de casas situadas à beira de córregos que recebem esgoto das moradias. Aqui é a situação típica que pode ser resolvida com o saneamento básico. Contudo, há lentidão nas obras sanitárias e enquanto essas não acontecem, a planta introduzida nas margens poderia ser utilizada pela própria comunidade, tomando-se os devidos cuidados para a coleta do látex, diluição adequada para dosar a concentração letal, o que pode ser objeto de treinamento e vigilância. 
 
O que se observa nesse caso é que, embora o pesquisador se aplique ao estudo, faça a patente, há um caminho que depende das políticas públicas e de iniciativas que hoje, no advento da ênfase na inovação, talvez possam trazer novos cenários e possibilidades.



Que experiências marcantes você destacaria em seu trabalho na Fiocruz?
 Eu listaria em ordem cronológica, embora haja superposição temporal de alguns trabalhos :

- A descoberta da ação moluscicida da coroa de Cristo 
- O desenvolvimento das coleções de livros: “Ciranda da saúde, Ciranda do Meio Ambiente e Ciranda da Vida, amplamente utilizadas em escolas públicas, o que foi pioneiro enquanto recurso lúdico para a educação em saúde.
- O desenvolvimento do jogo Zig-Zaids, com cem mil exemplares distribuídos pelo Ministério da Saúde no Brasil, contribuindo para a divulgação sobre a Aids entre crianças e jovens.
- A concepção do projeto inicial do Museu da Vida e especialmente do Ciência em Cena 
- A implantação do PROVOC e do Programa de Pós-Graduação Stricto sensu no CPqRR.

Contudo, para mim, há marcos que deixam emoções inesquecíveis. Uma delas, foi a chegada das peças da tenda do Ciência em Cena,  que começaram a ser descarregadas no local onde hoje encontra-se construída.  Isso aconteceu depois de uma luta para solicitar a doação à Fiocruz de uma das tendas da Rio-92. Nós fomos ao gabinete do Secretário Municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, na época, Alfredo Sirkis, com uma carta de solicitação oficial da Presidência da Fiocuz, para negociar isso. 

Após toda essa espera, no dia que o caminhão finalmente chegou, eu e o Gadelha (então diretor da COC e idealizador do Museu da Vida), fomos chamados e foi uma emoção ver aquela primeira idéia começar a tomar corpo. Após a chegada dos recursos do SPEC (Sub-Programa de Educação em Ciência) da CAPES, vê-la pronta, aparelhada e confortável como um teatro verdadeiro, assistir nela o primeiro espetáculo foi um presente muito especial. 

O que representa a Fiocruz para você?
Há uma frase que está presente em alguns: “Orgulho de ser Fiocruz” -  é isso que experimento a cada dia, e renovo as energias em alguns momentos mais difíceis, de desafios e impasses, comuns a toda grande instituição, sobretudo em um país em desenvolvimento, que experimenta oscilações que se refletem em nosso cotidiano. 

Sem ter planejado morar no Rio, sem conhecer a dimensão da Fiocruz, nela entrei e fui me envolvendo e percebendo que fazia parte de um lugar especial. Um lugar coroado por uma história relevante para o país e que renascia com um potencial enorme de protagonizar novas descobertas e ações para a transformação social É uma oportunidade ímpar pertencer à Fiocruz e também uma grande responsabilidade que procuro exercer com a mais sincera dedicação. Terei sempre orgulho de ser Fiocruz e espero deixar um lastro naquilo que me foi dado implantar ou participar da criação. Isso dá sentido à vida e conforta saber que sua trajetória profissional foi premiada por iniciativas bem plantadas, favorecidas pela instituição que te acolheu. 
Entrevista publicada em 26.08.2009 - Foto: Arquivo Pessoal

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